Piada mais engraçada do mundo para adultos

Relato pessoal de certos absurdos comuns que ouço a respeito do nordeste e que não deveriam ser tão indiferentemente aceitos

2015.11.29 00:26 fillingtheblank Relato pessoal de certos absurdos comuns que ouço a respeito do nordeste e que não deveriam ser tão indiferentemente aceitos

Olá amigos e amigas do /Brasil
Ultimamente uma série de experiências pessoais, experimentadas mesmo por mim, se acumularam e sinto a necessidade de falar. Talvez uma reflexão ou um debate possa nascer disso. Se não, pelo menos pus para fora.
Sou nordestino. Meu pai é do interior do Rio Grande do Norte e minha mãe do interior do Maranhão. Eu nasci no Maranhão. Além do português nativo, falo três línguas fluentemente (francês, inglês, espanhol), com certificado internacional para comprovar, e tenho noções avançadas de alemão e japonês. Tenho dois diplomas universitários, sociologia e direito, sendo que o de direito foi numa faculdade internacional que está entre as 30 melhores do mundo pelo T.H.E. ranking. Todos os meus irmãos, todos os meus tio/as e todos os meus primo/as têm educação superior, pelo menos um terço dessas pessoas são bilíngues, algumas são trinlíngues, e todas são nordestinas, embora nenhum dos meus quatro avós tenha terminado a escola (uma avó ingressou num programa de educação para adultos depois de uma certa idade e concluiu a educação). Os meus avós maternos eram agricultores e os meus avós paternos eram feiristas (ou feirantes, se preferirem). Minha mãe chegou a mendigar com os irmãos na infância, embora ela não goste de falar nisso. Isso tudo para dizer não uma humble brag, pois vocês nem me conhecem, mas para estabelecer um primeiro ponto: pobre, e pobre de lascar e analfabeto, não é desprovido da noção da importância da educação. Minha vó materna quando conseguiu um pouco mais de dinheiro na vida e se mudou para a capital do estado pôs, com sacrifício, os filhos numa escola de inglês. Isso na década de 70 e vindo do interior do Maranhão. Tem até uma história engraçada na família que um empresário do interior naquela altura passou a pagar meu tio para ir lá de vez em quando apenas porque ele era o único que conseguia ler os manuais em inglês que o cara comprava para a fábrica dele (ou fazenda, não sei os detalhes dessa história direito).
. Recentemente passei um tempo na região sudeste e ouvi algumas coisas que me impressionaram. Coisas que, tenho certeza, seriam vistas com constrangimento se fossem ditas para uma minoria nos EUA mas que no Brasil é, parece, lugar-comum e não causa uma fração da indignação que deveria causar. Pelo contrário, é dito despretensiosamente e recebido ao redor banalmente. São coisas que me ferem a inteligência e tentam ferir a dignidade. Se você for um amigo do sul ou sudeste do país gostaria que não só pensasse antes de dizer algumas dessas coisas como reprimisse e rechaçasse se alguém ao seu redor dissesse. Eis aqui o relato pessoal de coisas que ouvi e vivi nessa minha passagem pelo sudeste:
. 1) "Você é maranhense/nordestino? Mas você não fala como eles."
. A primeira vez que eu ouvi isso minha reação foi de surpresa. Surpresa porque nasci e cresci no nordeste, filho de ambos pais nordestinos, com minha vasta família e amigos de lá. Não havendo, portanto, quase ninguém ao meu redor que não fosse nascido e crescido no nordeste e que eu aprendi a falar como todas as crianças, absorvendo a fala da comunidade, me surpreendeu o reflexo de pensar que eu pudesse de alguma forma não falar como o meu meio. No início a minha reação foi "Ué, e como falam lá?" seguida de uma embaraçosa tentativa de explicar ou imitar uma fala brasileira que não existe, ou lembre uma caricatura exagerada de falas muito locais, encontradas em alguns bolsões perto da costa colonial (Recife, Maceió, pedaços da Bahia) que estão mais longe de mim do que a Guiana inglesa. Mas aí uma outra pergunta importante se seguia, da minha parte: "Você já foi ao Maranhão?". Resposta em 99% das vezes: "Não." "Mas você tem amigos de lá?" "Não." Então como você sabe como falam as pessoas de lá?
Se eu tivesse ouvido essa expressão uma vez na vida e outra na morte, vá lá, ainda passava como ingenuidade. Mas é algo que ouço com frequência. Já teve uma ocasião que o cara me disse que ele se baseava pelos nordestinos nas novelas. Porto dos Milagres, Auto da Compadecida, Cor do Pecado, Gabriela e assim por diante. Só esqueceu de considerar totalmente que o Marco Palmeira, a Flávia Alessandra, o Selton Mello, a Taís Araújo, a Juliana Paes, o Reynaldo Gianechini, a Maitê Proença são todos do sudeste, e quase todos especificamente do Rio de Janeiro (thanks, Globo). E sim, as esteriotipizações por eles feitas são cringey.
. 2) "Você não tem traços nordestinos/maranhenses."
. Essa é foda. Basicamente, a mesma série de perguntas acima sobre a fala podem e são repetidas aqui. A diferença é que por algumas vezes eu tive a resposta que o fulano ou fulana conhecia maranhenses pelos cortadores de cana ou funcionários de alguma fazenda do interior paulista. Cara, no fundo a pergunta é a seguinte: brasileiro tem uma cara? Carioca tem uma cara? Nordestino tem tanto uma cara quanto cariocas têm uma cara. Essa pergunta é bem "racistinha" (o único racismo que existe no Brasil é o racismozinho, segundo a narrativa autorepetida). o País é muitl-racial de norte a sul embora lógico certas zonas específicas vão ter uma presença maior de uma raça do que outra, mas não há nenhuma zona monolítica. "Iguais" a mim eu conheço milhões; diferentes de mim eu conheço outros tantos milhões.
. 3) "Você fala tão bem para alguém de lá."
. Ai cara, por onde começar... Deveria ser óbvio para qualquer ser com dois neurônios que isso não é algo aceitável de se dizer, mas a experiência me mostra que no nosso país não é o caso. Vamos pensar: o que essa frase implicitamente carrega? O que essa expressão presume? Assume que de acordo com o locutor nordestinos não são seres humanos com a mesma capacidade de falar "direito" ou "tão bem quanto" o resto do Brasil. Precisa explicar por que esse negócio é um absurdo? Por vezes essa frase vem com uma variante. Eu ouvi da boca de uma professora de inglês de uma das escolas mais caras da maior cidade do Brasil que "Meu inglês e minha pronúncia eras muito bons para um nordestino". Ela realmente acha que o sotaque dela e da região dela é que era a pica da galáxia (spoiler alert: não era), como se tivesse uma qualquer naturalidade sonora quando ia na língua de Shakespeare (não tem). De vez em quando aparece um cidadão que me diz que os maranhenses têm o melhor português do Brasil. Falso, e igualmente um preconceito, e eu sempre desalimento. Mas da mesma maneira que combate-se um tem de se combater o outro. Enfim, se eu falo bem ou não, certamente isso tem a ver comigo e não com minha geografia de nascimento. O nordeste tem a mesma qualidade de educação e cultura que o resto do Brasil. O Piauí aparece com frequência no topo de listas com melhores escolas públicas. Não é por aí. E o nosso cérebro é o mesmo, nós somos a mesma espécie (estou dizendo isso em 2015). Minha capacidade de aprender a falar, inclusive em outras línguas, é a mesma da sua e de todo mundo.
. 4) "Lá no Maranhão tem [inserir qualquer coisa básica que tem em qualquer lugar do mundo]?"
. Bicho, não tem nada que tenha aqui que não tenha lá. Certa vez, em uma conversa sobre tecnologia brasileira, eu mencionei a base espacial de Alcântara, no Maranhão, um lugar top e o coração da agência espacial brasileira, e o sujeito - que eu duvido que sabia que isso existia - reagiu assim: "Ha, deve ser do tamanho de uma cozinha". Que engraçado. E sim, isso é um comentário bastante cretino. Sem falar que não é um insulto ao estado, é um insulto ao país. Não sei se ele entende porqué. Ademais, para voltar ao espírito da pergunta, não, eu não vou para a escola ou trabalho de barco nem de cavalo. Eu pego o carro, ligo a rádio ou o smartphone para ver como tá o tránsito e vou pelas avenidas ou de metrô. Certa vez uma pessoa comentou, seríssima, que eu devia ter saudades de andar de cavalo pela praia agora que eu vivia "numa selva de concreto". Cara.... Pessoa.... eu nunca andei de cavalo a não ser em festa de rodeio no interior de São Paulo, eu quase não ia à praia (quando ia, pasmem, ia de carro) e as cidades nordestinas são "selvas de concreto" também. Aliás, infelizmente, podiam ter um pouco mais de espaços verdes como tem São Paulo e Rio. Hoje em dia, eu acho, em cidades como São Paulo e Curitiba há um debate importante sobre qualidade do espaço urbano, qualidade de vida e verde acima do puro desenvolvimentismo, enquanto que no nordeste a mentalidade é quase puramente desenvolvimentista. O negócio nas cidades nordestinas é ter 100 megashoppings com redes de viadutos interconectando todos e condomínios-bairros privados, essa criatura saída do inferno, completos na orla da praia. Quem me dera tivéssemos mais espaços verdes, natureza e praças como no sul e sudeste.
. 5) “Isso é tão baiano.”
. Ou, no caso dos amigos cariocas, tão paraíba. Olha, essa deveria ser fácil de entender. Quando um insulto é literalmente a origem de alguém tem algum problema com o insultador. Eu nunca ouvi na vida um nordestino dizer que algo era muito carioca ou muito paulista como denegrimento, inclusive se estivesse falando de algo tipicamente carioca ou paulista. Uma vez um cara disse para mim “Que óculos baiano, cara”. Não importa que nível de intimidade você acha que tenha com alguém. Na pior das hipóteses, se isso for permissível, diga que achou meus óculos feio, mas essa de usar baiano como insulto é de lascar. E eu não sou da Bahia nem tenho família lá (infelizmente, pois se pudesse morava lá, visto ser o lugar e o povo que mais gosto no Brasil). Ou tãopouco da Paraíba.
. 6) Insultos aos nordestinos numa tentativa de relacioná-los com agendas políticas manipuladas.
. Num jantar recente em São Paulo ouvi uma pessoa dizer uma verdadeira pérola de frase. Que “as pessoas ‘daquela região’ votam como votam porque não são tão bem informadas quanto a gente”. Não, filha, não é por isso. É por uma série de motivos complexos e pessoais que pessoas votam diferente umas das outras,e nenhuma região aliás vota em uníssono. Esse comentário é de um simplismo e de uma babaquice, sem falar também de uma senhora pretensão e complexo de inteligência e informação maior do que a dos outros… Como se cada população não tivesse também meios de informação e pudesse pensar por si. Uma certa camada da população está convencida de que o PT só existe “because Nordeste”. Nas últimas eleições quem tem olhos viu a baixaria que foi contra nordestinos na internet e em outras situações. Em especial, que é o Bolsa-Família que define o voto nordestino. Eita eu queria viver nesse mundo dessa galera, onde tudo é simples, quadrado e preto-e-branco. Um pouco de realidade: o 2º estado do país inteiro com mais beneficiários do bolsa-família é………… São Paulo. E o 4º estado com mais beneficiários do programa é….. Minas. O 3º estado com mais beneficiados é Pernambuco, mas… Aécio Neves perdeu para Dilma em Minas, sua terra natal. Dilma e o PT perderam em Pernambuco (Marina levou). Aécio perdeu também no Rio de Janeiro. O candidato a governador que a Dilma, o Lula e o PT apoiaram no Maranhão perdeu para o candidato da chapa formada pelo PSDB. No Pará também aconteceu exatamente a mesma coisa (sim, não é nordeste, mas é com frequéncia acusado de ser curral eleitoral do PT). Dilma venceu no Rio Grande do Sul. Mas perdeu em três estados da região norte, uma das regiões mais beneficiadas pelo bolsa família, percentualmente, no país. O Maranhão é o estado com a maior proporção percentual de cadastrados no país, e é um sétimo da população. Seria ingênuo crer que o eleitorado está prestando qualquer fidelidade ao PT, tendo-os inclusive rechaçado do governo estadual (e com 65% dos votos, um recorde nacional, pelo candidato da oposição). Posso garantir que há mais militantes do PT no sul do país que no Maranhão. O MST nasceu no Rio Grande do Sul, vale lembrar. Mas isso não digo nem contra o PT, pois discutir política não é o intuito desse post, nem contra o Rio Grande do Sul, estado pelo qual não nutro nada de mal (pelo contrário). Até porque não sou desses hipócritas que existem por aí aos montes (e nesse sub também) que denunciam um comportamento contra seu grupo para fazer o mesmo contra outro grupo; os “anti-preconceitos” seletivos. Nem contra São Paulo nem contra o sudeste este post é. Quero mais é que os povos dessas regiões sejam felizes e prósperos. O que escrevo é, isso sim, contra um comportamento e contra uma mentalidade. É contra uma visão de mundo preto e branca, cheia de simplismos grosseiros e de preconceitos não inocentes. Uma que todos nós deveríamos denunciar. Enfim, o brasileiro vota mal em todo o país. O nordeste não vota “pior” nem mais “mal informado” que o sudeste. Até ontem São Paulo elegia Maluf e Pitta para cargos executivos. Eu até acho que dadas as circunstâncias presentes o nordeste talvez vote um pouco melhor porque no Rio o Gabeira perdeu para o Cabral e em São Paulo não tem crise administrativa nem escândalo político que abale a reeleição do governo estadual; enquanto que no nordeste, onde toda a mídia é controlada por famílias de coronéis, ainda assim o Maranhão tirou os Sarney do poder; a Bahia tirou os Magalhães do poder e Collor perdeu para o governo de Alagoas (que em 89 foi eleito com 60% dos votos em São Paulo). Lembremos disso também. Quase todos os estados do nordeste tiveram mais rotação partidária que os estados do sudeste. No Natal passado, logo após a brigaria das eleições, nos meus grupos de whatsapp com amigos e familiares do Maranhão eu recebi algumas vezes uma dessas imagens-mensagens passadas e repassadas em que a figura dizia “Sabe o que eu tenho vontade de dizer para esse pessoal que insulta o nordeste e que agora vem passar ano novo aqui nas nossas praias!?! … Sejam bem-vindos, esperemos que desfrutem da estadia e queiram voltar.” Essa é uma mentalidade que aprovo. A gente passa rápido notícia ruim mas eis aí brasileiros repassando uma coisa boa, madura.
. Enfim, esse texto já está muito grande. Se alguém chegou até o fim a moral da história é: deixem de preconceitos, o mundo é mais complexo. Larguem e não permitam esse “racismozinho” tipicamente brasileiro. Caguem na cara dos regionalismos. Cada lugar tem pessoas boas e más, inteligentes e burras, mas nenhuma tem números percentuais muito diferentes dos mesmos e a realidade é bem mais complexa que qualquer situação. Aliás, não são só “gente do sudeste” que faz essa merda com “gente do nordeste”. Como alguém que já viajou à Bolívia e a países na África e que sabe o quanto esses países tem desenvolvimento, inteligência, estrutura, lazer, e tudo o que tem no nosso eu fico impressionado com a quantidade de merda e “racismozinho” que eu ouço meus conterrâneos falarem desses povos.
TL;DR: abaixo o “racismozinho” tão aceitável no Brasil. Regionalismo (quando não é apenas piada inocente) é preconceito forte e ignorante, embora largamente aceito no Brasil.
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